Usando fantasia no trabalho, ouvindo música ou revirando fotografias, foliões vivenciam o carnaval em Caicó

Com a pandemia, o carnaval que é tempo de agito, música, e muita gente reunida, foi silenciado. Os foliões que desde a infância participam do carnaval, como se mergulhassem num mundo mágico, de fantasias, reencontros, riso e dança, vivenciam este momento com um sentimento de saudade.

Entre os foliões, há quem faça fantasia para ir ao trabalho, quem esteja em sintonia com rádios e lives de Pernambuco, quem esteja revirando as imagens de recordação dos antigos carnavais e até quem realize neste período, um tributo às 17h, em referência ao horário que inicia a saída dos blocos de rua, no carnaval de Caicó.

Sabugiense, residente em Caicó, o advogado Marcílio Nogueira, é um folião dividido entre o carnaval de Pernambuco e o carnaval de Caicó. Todos os anos, ele vai a Recife e Olinda, onde permanece por dois dias.

Neste ano, o folião vivencia o carnaval ouvindo frevos e marchinhas de Pernambuco, e assistindo vídeos dos blocos antigos de Recife.

“Todos os anos eu preciso ir a Recife e Olinda, sentir aquele carnaval autêntico, carnaval de raiz, com fantasias, frevo, caboclinhos, uma cultura que sai pelos poros. Mas volto nos últimos dias, para brincar em Caicó, porque gosto muito do carnaval de Caicó e me sinto nas ladeiras de Olinda quando o Bloco da Furiosa e da Flor de Mandacaru tocam. Neste ano, estou ouvindo rádios de Recife e Olinda, que transmitem frevo o dia inteiro. É meu repertório nestes dias. Choro muito e sei que vou chorar mais, com as lives do Galo da Madrugada e outros blocos tradicionais de Pernambuco”, afirma Marcílio Nogueira

Foliã de todos os dias e noites do carnaval de Caicó, a funcionária pública Joana Darc de Sena, relata que desde a infância, foi motivada a gostar de carnaval, porque os irmãos e irmãs já participavam de blocos. Ela usa fantasia em todos os eventos da festa momesca, e neste ano, seu carnaval é de recordação, através das suas publicações em rede social.

“Todos que me conhecem sabem do amor que tenho pela folia do momo. Meus irmãos e irmãs eram de blocos e  temos raízes muito voltadas para o carnaval. Eu me jogo, me preparo para o baile de carnaval da Casa de Cultura, participo do carnaval de rua, porque essa ludicidade do carnaval desperta a criança que tem dentro da gente. Esse ano é doloroso, triste. Mas seguimos recordando pelas fotografias, e nos guardando para brincar nos próximos anos”, relata Joana Darc Sena.

No horário das 17h, inicia em Caicó a saída oficial dos blocos de rua, abrindo alas com o Bloco Ala Ursa do Poço de Sant’Ana, Bloco do Magão.

Abrindo alas do bloco, está o brincante Emanuel Bonequeiro, na pele de seu personagem “Chupeta”. Neste ano, pontualmente as 17h, o brincante resolveu fazer uma homenagem particular, em casa, que ele chama de “Tributo ao Bloco do Ala Ursa do Poço de Sant’Ana”.

” Todos os anos eu brinco no Ala Ursa do Poço de Sant’Ana. Inicialmente como folião e hoje como brincante, então, todos os dias, às 17h, presto meu “tributo” ao Bloco do Ala Ursa. Na minha caixa de som, coloco frevos do bloco, transmissões que o Kurtição fazia e fico ouvindo em casa. Isso também me inspirou e vou lançar neste carnaval, um vídeo, onde o personagem Chupeta, que há 13 anos faz a alegria do Abre Alas, do Bloco do Magão, irá falar sobre o sentimento de viver este carnaval”, afirma Emanuel Bonequeiro.

Mesmo sem folia nas ruas, nesta sexta-feira de carnaval, que antes era o dia do Bloco das Virgens, uma foliã foi ao trabalho fantasiada, mesmo sem ter o carnaval de rua, para participar no final do expediente. A bancária Lucineide Medeiros, conhecida como Neidinha, já foi trabalhar de Frida, Carmem Miranda, Pierrot, mas, neste ano, resolveu ir ao trabalho vestida de vacina Coronavac.

“Eu sou louca por carnaval, espero o ano inteiro, imagino as fantasias, e neste ano, sinto um vazio. Então, veio a inspiração da vacina que é nossa esperança. A gente conta as horas para que todos tenham acesso, então, vi o frasco na internet e resolvi desenvolver a fantasia, onde eu simbolizo a Coronavac”, afirma Neidinha.

Uma colega da bancária, a pernambucana Zizerê, também costuma acompanhar a amiga na ideia de usar fantasia na sexta-feira de carnaval, e neste ano, usou a fantasia de jacaré. As duas garantem que fizeram sucesso no atendimento bancário, levando alegria aos clientes, ao encontrarem, no caixa, as duas fantasiadas.

Sobre possibilidade de festejar o carnaval, ela afirma que jamais curtiria o carnaval, em pandemia. “Moro com meu pai de 81 anos, e jamais curtiria um carnaval aglomerando, também por respeito as vítimas da Covid, por saber que a pandemia não acabou. Tenho responsabilidade”, sintetiza Neidinha Medeiros.