PHd em Biologia diz que a ciência fez a sua parte: “agora a guerra contra o vírus depende de quem nos governa”

É preciso descobrir a eficácia de vacina contra a covid usada no Brasil contra novas cepas do Sars-CoV-2

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

 

É bom olhar para trás e comemorar as vitórias. Em meados de 2020 os cientistas iniciaram os ensaios clínicos de fase 3 com moléculas candidatas a vacina. Naquela época a dúvida era se algum desses estudos resultaria em uma vacina capaz de conter o coronavírus. Em um artigo explicando como funciona um estudo de fase 3, afirmei que estava preocupado pois estudos de fase 3 eram historicamente um cemitério das vacinas: somente uma em cada dez passava nos testes de segurança e eficácia.

Seis meses depois, diversas vacinas passaram o teste da fase 3 e já estão sendo usadas. Para surpresa geral, a maioria funciona. Ou seja, produzir vacinas contra o novo vírus não é difícil. O Sars-CoV-2 é uma presa fácil para imunizantes.

Nossa coleção de vacinas, produzidas com tecnologias que vão do vírus inativado (Conronavac e Bharat), passando por produtos usando RNA (Pfizer e Moderna), ou proteínas (Novavax) e imunizantes que usam adenovírus modificados (AstraZeneca, Sputunik e J&J), é enorme e está crescendo. Minha impressão é de que, em teoria, já ganhamos a guerra contra o Sars-CoV-2. É só uma questão de tempo para a covid-19 se tornar mais uma doença viral com a qual vamos conviver com relativa facilidade. O problema é saber quanto tempo levará para controlarmos a pandemia e quantas mortes e sofrimento vamos aturar até chegar lá.

A quantidade de sofrimento vai depender de três fatores. O primeiro é a produção de um número suficiente das vacinas para garantir que a vacinação não seja atrasada por falta de doses. Esse é essencialmente um problema da engenharia química, engenharia de produção e eficiência industrial de cada empresa. No caso de a produção ser estatal, dos institutos governamentais envolvidos. No Brasil isso implica acompanharmos dia a dia a montagem das fábricas no Butantan e na Fiocruz.

O segundo fator é a capacidade dos sistemas de saúde de distribuir rapidamente as vacinas pelo País e garantir que a adesão da população seja alta. No Brasil isso está na mão das três esferas do governo: Brasília compra e distribui as vacinas e Estados e municípios são responsáveis por vacinar, controlar quem já foi vacinado e garantir que recebam a segunda dose.

O terceiro fator é o aparecimento de novas cepas e o risco que elas representam. Inglaterra, África do Sul e Manaus estão sentindo o que é conviver com novas cepas. Elas aumentam o número de casos e tendem a reduzir a eficácia da vacina, obrigando os cientistas a criarem novas versões. Nesse quesito é importante identificar logo as novas cepas (algo que até aqui só a Inglaterra está fazendo de forma sistemática) e determinar se imunizantes usados na região têm sua eficácia reduzida. Isso é especialmente importante para países que utilizam produtos de menor eficácia, como a Coronavac.

No caso das vacinas que estão sendo usadas globalmente (Pfizer, Moderna e AstraZeneca) esse monitoramento está sendo feito. No Brasil a tarefa mais importante é descobrir qual a eficácia da Coronavac contra as cepas de Manaus, da África do Sul e da Inglaterra. Sem esse dado podemos estar vacinando regiões do Brasil com uma vacina que não tem eficácia (é o caso de Manaus e de outras regiões onde a nova cepa está se espalhando).

Em resumo, a quantidade de sofrimento que ainda nos será imposta pelo coronavírus depende de como a sociedade vai conseguir coordenar esses três fatores: quantidade de vacina, velocidade de vacinação e monitoramento e substituição das que deixarem de ser eficazes. No Brasil essa responsabilidade está com o governo, em última instância com os governantes que elegemos. Temos de ficar de olho.

A grande notícia é que a ciência fez a sua parte. Demonstrou que o SARS-CoV-2 é uma presa fácil para seu mais potente predador: seres humanos vacinados com uma vacina eficaz. Já dispomos das armas mortais, de um método de atualizar essas armas, e agora essa guerra depende das pessoas às quais delegamos o governo de nossa sociedade.

 

* É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS