Jovem de BH na Nova Zelândia celebra vida normal: ‘liberdade de volta’

Agridoce” – a palavra com que a estudante belo-horizontina Débora Abelha, de 23 anos, que mora em Auckland, maior cidade da Nova Zelândia, define a vida no país, tem razão de ser. Enquanto por lá se realizou um show com 50 mil pessoas nesse sábado (25), em um dos maiores estádios que a região tem para oferecer, o Brasil – e grande parte do mundo – sofre com confinamento, morte e todos os agrumes da pandemia de Covid-19.

O país, que tem cerca de 5 milhões de habitantes, registrou apenas 26 mortes por Covid-19 desde o início da pandemia e 2,6 mil casos. Apesar disso, as medidas de contenção do coronavírus foram severas e ele só começou a reabrir as fronteiras no último 19 de abril, cerca de 400 dias após o fechamento. Contudo, só “bolhas” específicas podem entrar no país. A última permitida foi a Austrália.

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Arden ficou mundialmente conhecida pela mão pesada nos fechamentos, que duraram meses, apesar da pequena quantidade de casos no arquipélago. Em público, a única medida obrigatória que se mantém do lockdown é o uso de máscaras e limitação da entrada e saída de estrangeiros. Todavia, há uma política em vigor que, cada vez que um caso comunitário for detectado, a cidade na qual ele foi computado entre em lockdown por, ao menos, cinco dias. 

Em Auckland, cidade com cerca de 1,6 milhões de habitantes onde Débora vive, houve um fechamento na segunda semana de fevereiro, devido à detecção de um caso de Covid-19. Imediatamente, o governo determinou fechamento de escolas, proibiu trabalho presencial e reuniões com mais de 10 pessoas. “Erradicamos o vírus uma vez e vamos fazer isso de novo”, disse Ardern à época. Agora, tudo está aberto.

“No primeiro lockdown, em março de 2020, não havia um carro na rua. Foi muito intenso. Tinha horário específico para fazer caminhada, e, às vezes, eu voltava mais tarde para casa, do supermercado, a polícia me parou, havia uma vigilância muito forte. Mesmo assim, as pessoas não saiam tanto. Não são muito de desobedecer as medidas”, relata.

Questionada se está retomando a vida, ela afirma que a situação está “normal”, como na pré-pandemia. “Usei minha máscara três vezes, tudo está muito tranquilo, saio bastante, vou para o bar, trabalho no bar. A gente vê como estão as coisas no Brasil, na Índia, mas, aqui, não tem mais isso”, diz.

“Tia Cindy” – apelido dado por parte da população à primeira-ministra – foi uma pessoa pública presente, que “colocou muito a cara a tapa”, de acordo com Débora. “Ela e o ministro da Saúde estavam sempre na televisão, mesmo que jornalistas, principalmente à direita, criticavam. Ela informou tudo o que ela pode e gostei muito da forma como ela lidou. A gente teve o sacrifício, mas temos hoje 50 mil pessoas aglomeradas”.

Os pais de Débora moram em Belo Horizonte, e ambos foram infectados pelo coronavírus. Ela conta que, na conversa com eles, há pouco entendimento entre a diferença das duas realidades. “Meu pai me pergunta: mas quantos casos teve aí? Respondo: não sei, nenhum. Outro dia ele me perguntou o número de mortes. Foram 26. Eu me preocupo muito, meu pai trabalha na Ceasa Minas, muitos amigos estão morrendo, mas eles ainda viajam, ambos foram para o Rio, voltaram. Eles querem ter algum entretenimento, e é muito complicado. Existe muita preocupação, mas eles tratam com tanta banalidade, que me assusta. É muito diferente”, lamenta.

As amizades no Brasil estranham a liberdade que Débora tem. “Aproveitei toda parte de estar no melhor país, chega a ser agridoce. Eu saio, vou ao cinema, muita gente vem perguntar, eu vou toda semana. Aumentou um pouco o preço, mas continuamos indo, sabe? É muito esquisito de imaginar que não é todo o mundo que está aqui. Chega a ser muito agridoce”, define.

Em relação à economia e o fechamento, Débora garante que “tudo que fizemos valeu a pena no final”. “Literalmente, o importante é ficar em casa. Eu sei que todo mundo quer sair, mas vale muito mais a pena esse sacrifício inicial. Se precisar de trabalhar, vá com cuidado. Às vezes é quase impossível não sair, mas deixar para o mínimo para sua sobrevivência. Não procure aglomeração, vale muito a pena quando melhorar. Ter a liberdade de volta é muito bom”, concluiu.

A previsão de vacinação para a faixa-etária de Débora em Auckland é em junho, mas há outros locais do país que devem vacinar pessoas jovens antes disso.

A Nova Zelândia concluiu a vacinação, com duas doses, de 42.771 pessoas até esta terça-feira (27).

Apesar disso, o percentual de vacinação da população ainda é baixo, de 0,86%. A média móvel de novos casos da doença está em dois, com oito registrados nas últimas 24 horas.

Fonte: O Tempo – Lucas Negrosoli